Sia e o direito da imagem

Todos querem saber quem está por trás de Daft Punk ou Deadmau5. Para eles, o discurso limita-se à curiosidade. Já para Sia, ele vira cobrança.

Zigzag Black

Por Nathalia Levy

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Nós não conhecemos muito bem a imagem atual dela, não temos notícias do histórico de namoros ou das preferências na hora de se vestir. Além disso, ela busca preservar a imagem ao máximo e, no auge da carreira, opta por esconder o rosto em performances e não aparecer em revistas. A pergunta que fica é: será que alguém com essas preferências conseguiria fazer sucesso nos dias de hoje? Ao que tudo indica, sim.

A cantora Sia Furler anda deixando a imprensa especializada em música e, principalmente, a focada em celebridades com um nó na cabeça. Afinal, como uma mulher poderia desejar aparecer desta maneira (veja foto abaixo) no Grammy – o maior e mais importante evento da indústria – quando todos os maquiadores, cabeleireiros e estilistas estão a sua disposição?

A questão é que Sia passou grande parte de sua carreira nos bastidores: escreveu músicas para Rihanna e Beyoncé, além de ter colaborado com sua voz em hits de David Guetta e Flo Rida. Quando estourou com o álbum 1000 Forms of Fear, no meio do ano passado, ela já estava bastante consciente do que estava por vir. A opção 1 seria deixar-se levar e aceitar que, para a mídia hegemônica, uma vez que você decidiu mostrar sua arte para o mundo, consequentemente também aceitou passar por qualquer tipo de julgamento e enquadramento. A opção 2 foi buscar mecanismos para afastar-se desta loucura e do conhecido lifestyle das divas do pop com a quais trabalhava.

Esse texto, por exemplo, sugere que o fato de Sia esconder seu rosto só faz com que as pessoas queiram cada vez mais vê-lo e que isso, além de ser uma jogada de marketing, acaba distraindo a atenção do público de sua música. Por que será que quando Daft Punk aparece com capacetes, então, as pessoas chamam de genialidade e uma boa tacada para focar mais em sua música?

Esse texto, por exemplo, sugere que o fato de Sia esconder seu rosto faria com que as pessoas quisessem cada vez mais vê-lo e que o ato, além de ser uma jogada de marketing, acabaria tirando a atenção do público de sua música.

Por que será, então, que quando a dupla do Daft Punk aparece com capacetes, as pessoas os chamam de gênios e aplaudem a ideia?

É errado dizer que não há interesse por parte da imprensa em descobrir quem está por trás dos capacetes do Daft Punk ou do Deadmau5, mas há uma falsa simetria em assumir que a atenção é a mesma. Enquanto para os homens, o discurso limita-se à curiosidade, para Sia, ele vira cobrança.

Para Débora Cassolatto, redatora e curadora musical por trás do blog Música de Menina e do Tumblr Ouvindo Antes de Morrer, há diferenciação de tratamento por parte da imprensa ao falar de gêneros. “A gente não pode desconsiderar que, no caso da Sia, por ser mulher – especialmente exposta na mídia – tem todo aquele julgamento de beleza, padrões, envelhecimento, rugas, maquiagem, ‘parece mais triste’, ‘parece mais caída’, ‘parece que colocou botox’, parece isso, parece aquilo.”, pontua. “Quando a questão é entre as mulheres, a sociedade (e aí falo da mídia, público, fãs) impõe várias regras e acabam até perdendo o foco do que importa de verdade: a música e o trabalho da artista”.

A fascinação pela imagem da cantora ganha proporções ainda maiores quando percebe-se que ela teria potencial para virar uma grande representação midiática: cabelos loiros lisos, olhos azuis, branca e magra. Com todos os requisitos para ser inserida na categoria atraente, ela passou a ser classificada como um desperdício – imaginemos por um segundo como sua imagem poderia ser vinculada a produtos de beleza e demonstrações de maneiras para se continuar bonita aos 40 (Sia tem 39 anos).

A jornalista Alexandra Pollard, do The Guardian, definiu: “Muitas pessoas reagem mal ao fato dela preferir se esconder e usam o argumento ‘mas ela é tão bonita’. Como se a decisão estivesse completamente justificada se ela não fosse atraente. Nesse caso, seria ótimo que ela escondesse seu rosto, de preferência com um saco de papel. Aparentemente, ninguém que ver uma mulher feia, mas uma pop star considerada bonita relutando para não ser devorada? Todos acham que é loucura”.

Dentro de uma sociedade em que o corpo é o nosso maior valor, uma pessoa que faz parte da indústria decidir abdicar de sua imagem é praticamente inaceitável. Christiane Moura Nascimento, Caio César Souza Camargo Próchno e Luiz Carlos Avelino da Silva, no artigo “O corpo da mulher contemporânea em revista”, escrevem:

“Já que nas malhas do capitalismo, tudo pode se transformar em valor capital, passível de ser consumido, até o corpo se transforma em objeto de consumo. No caso, ‘o mais belo objeto de consumo‘. Esse processo acontece pelas vias da “cultura do narcisismo”, que aliada à regência do capitalismo pelas leis de consumo, leva-nos a questionar se um dos grandes valores contemporâneos não seria o consumo de si próprio; ou pelo viés do espetáculo, o consumo da imagem de si. Ou ainda, o consumo da imagem do próprio corpo.”

Ainda neste texto, são trazidos à tona outros argumentos que se relacionam com a pressão midiática que Sia convive. O trio de autores relembra que na década de 1920, “houve um forte crescimento da indústria de cosméticos, voltado principalmente à aparência das mulheres”. O padrão, que ainda está em voga, eram as estrelas de Hollywood e as mulheres que apareciam em revistas e na publicidade.

Nos anos 1960, as mulheres conquistaram alguns direitos, como o voto, a inserção no mercado de trabalho e, de certa forma, passaram a lidar de modo diferente com seus corpos e sexualidade. “Podemos pensar que houve uma transformação do corpo da mulher em diversas instâncias sociais”, escrevem. A partir daí, eles dizem que a subjetividade feminina entra em um estado de paradoxo: “de um lado, a luta feminista foi no sentido de liberar o corpo feminino, num chamamento ao pleno exercício da sexualidade e da ocupação da mulher em diversos setores da esfera pública; por outro, o chamamento da mídia já se impunha no sentido de delimitar as ações e práticas femininas, principalmente no que concerne aos cuidados corporais”.

Em resumo, a mídia mostra a figura da mulher, mas sempre sustentada em um sistema capitalista, o que transforma o ato de consumir – historicamente muito ligado às mulheres – em um verdadeiro espetáculo. Sia, quando decide esconder seu corpo, rejeita fazer parte deste show.

As chamadas identidades prêt-à-porter, termo utilizado por Roinik para definir subjetividades modificadas à velocidade da moda, ganham personificação em cantoras como Beyoncé e Rihanna. A imagem de seus corpos é incorporada pela mídia e cada modificação de cabelo, maquiagem ou intervenção cirúrgica ganha uma verdadeira cobertura da imprensa que, mais tarde, será transformada em consumo por grandes marcas. É vendida a ideia de que para ser e estar no mundo não é necessário um ato criativo ou produtivo, mas sim um ato de consumo. A liberdade de viver à sua maneira não passa de uma ilusão, vinculada, sobretudo, pela publicidade.

Ao aparecer sempre com o mesmo corte de cabelo – com alguns updates, já que a cantora também gosta de ousar – e afastar-se de eventos e entrevistas, Sia causa uma revolução associada ao que é esperado de uma mulher famosa: abusar de roupas, maquiagem e cabeleireiros conforme dita a moda e participar de um fenômeno bastante contraditório, o de “procurar maneiras de ser diferente a partir de produtos padronizados”.

Para a imprensa que insiste em dizer que, ao se esconder, Sia promove a reação inversa, ela responde: “eu estava na Target outro dia comprando uma mangueira, minha música estava tocando no rádio e ninguém me reconheceu. Então, eu pensei ‘ok, este experimento está realmente funcionando”, disse à revista Interview.

Sendo assim, focar em seu talento e sua música, assim como fazemos com Daft Punk, e aceitar que nem todas as mulheres famosas querem fazer parte desse circo midiático, que inclui pressões diárias sobre sua aparência e cobranças sobre sua vida pessoal. Então, não nos mostre seu rosto, Sia.

Vale a leitura: o artigo “O Corpo da Mulher Contemporânea em Revista”, de Christiane Moura Nascimento, Caio César Souza Camargo Próchno e Luiz Carlos Avelino da Silva, utilizado neste matéria e disponível aqui.

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Nathalia Levy
Ama o jornalismo, mas também queria estar fazendo design gráfico, cursos de programação, aprendendo a ilustrar e estudando ciência política. Pretende juntar todas essas paixões para discutir questões de gênero.


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