Quem tem medo do feminismo?

Como o movimento que promove a igualdade entre homens e mulheres tornou-se um bicho de sete cabeças.

Zigzag Black

Por Jéssica Ferrara

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– Não sou feminista, sou feminina.
– E quem precisa de feminismo? Nós já estamos inseridas no mercado
– Essas feminazis mal amadas … por que elas têm que ser tão radicais?
– O humanismo me representa.

Uma tarde, estava conversando com um amigo sobre igualdade de gêneros e a minha total imersão no assunto. Quando mencionei o termo “feminismo”, os olhos dele se estreitaram e a cabeça acenou negativamente. “Legal tudo isso, mas será que não é melhor você parar de se considerar feminista? Quer dizer, a palavra é tão negativa, meio radical demais”. Meus ombros caíram, demonstrando cansaço. Afinal, por que as pessoas têm medo de falar sobre feminismo?

Em entrevista com a jornalista à frente do Think Olga e do projeto Chega de Fiu Fiu, Juliana de Faria é categórica: a ignorância faz os indivíduos transformarem o termo feminismo negativo. “Qualquer minoria que tenta lutar pelos seus direitos incomoda pessoas que vivem sob privilégios. Estas pessoas, claramente ameaçadas, começam a reproduzir ideias que não condizem com a realidade”, afirma Juliana. Acontece! A própria jornalista não se denominava feminista por achar que o movimento a renegava. “Eu gosto de moda e de beleza, e me casei. Opções que acreditamos que o feminismo não permite. E não é verdade”, explica. Feminismo é a luta por direitos iguais. Parafraseando o livro da autora Carla Cristina Garcia, “Breve história do feminismo”, ele é movimento social e filosofia política, que promove a tomada de consciência das mulheres, como coletivo, da opressão, dominação e exploração que sofreram e sofrem de estruturas machistas, como o patriarcado.

Bruna Provazi, militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres, acredita que a mídia tem grande parcela de culpa nessa alienação sobre o movimento. “Muitas vezes, a cobertura é feita de maneira distorcida. Quantas vezes eu já não vi tablóides resumirem anos de luta das mulheres em duas meninas que resolveram ficar peladas em algum movimento grande?”, conta. Djamila Ribeiro, filosofa e colunista da Carta Capital, concorda e acredita que os mitos criados em torno do feminismo foram criados por um propósito. “A mídia hegemônica contribuiu com estes estereótipos negativos, sim. É uma manobra, uma tática bem sucedida para afastar o movimento das mulheres e manter a manutenção dos privilégios”, explica a filosofa.

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Ao digitar ‘feministas são’ na barra de pesquisas do google, as primeiras palavras-chaves a aparecerem foram ‘chatas, mal comidas, feias e mal amadas’. (Foto: Reprodução/Printscreen)

Em contrapartida, nunca se falou tanto do movimento feminista como atualmente. Com a democratização do ciberespaço, as mulheres ganharam voz. As mídias alternativas, como os blogs, ajudaram a criar um ambiente muito favorável para expressar e debater o movimento. A mídia tradicional ignorou por um tempo, mas não conseguiu mais. Assuntos como: assédio sexual, estupro, violência doméstica e outros tantos mais, tinham que ser abordados. Aliás, não só falar da mulher espancada, mas também de mulheres que ocuparam lugares-chave na geopolitica internacional e só comenta sobre a roupa e o corte de cabelo dela. Como diria a jornalista Marina Terra, ex-diretora do site Opera Mundi: “Nós não somos só tragédia, apesar de muita tragédia acontecer com a gente”.

Como consequência, o feminismo ficou na moda. A jornalista Vanessa Rodrigues, uma das fundadoras do coletivo feminista Casa de Lua, conta que ao mesmo tempo que existem significados equivocados sobre o feminismo, há um fluxo paliativo. “A nova geração sente orgulho de dizer: “eu sou feminista”. Não sei dizer se é porque o feminismo está fashion. Aliás, nem sei se este fenômeno é ruim! Ver cantoras como a Beyoncé e atrizes como Emma Watson pautando o movimento é muito importante”, conta.

Fala-se muito em feminismo. De todos os viéses possíveis. Jarid Arraes, integrante do Blogueiras Negras e colunista da Revista Fórum, concorda que este barulho é positivo para o movimento, porém é bom ficar de olho com a apropriação da luta pela mídia mainstream. “Grandes emissoras de televisão estão pautando assuntos feministas, mas sempre de maneira politicamente correta, trazendo um feminismo muito palatável. Eles não propõe nada transformador na estrutura da sociedade”, diz. A partir do momento que um assunto ganha uma abordagem considerada um afronte ao patriarcado, não é mais interessante.

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Algumas matérias feitas em 2015 que usavam o termo ‘feminazis’ a sério. (Foto: Reprodução/Printscreen)

A verdade é que nada impede de você ser feminista, e ser feminina também. Um não anula o outro. É fato que estamos, sim, inseridas no mercado, mas para muitas, diria que a maioria, a volta para a casa implica em uma dupla, tripla jornada, no cuidado da casa e dos filhos. O regime nazista perseguiu minorias como judeus, socialistas, homossexuais …. e mulheres ‘libertinas’,  que não se encaixavam no papel de gênero socialmente imposto pelo regime. Portanto, além de ofensivo, o termo feminazi não é nada coerente. A filosofia humanista valoriza o ser humano e suas escolhas guiadas por valores ligados principalmente à compaixão, descartando completamente qualquer ligação religiosa ou considerada sagrada. O que ser feminista tem a ver com ser ou não humanista? Nada. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Se o feminismo ganhou conotação negativa, ou virou apropriação do capitalismo, pouco importa. O que importa é falar, fazer barulho, tirar do lugar. Quanto mais incomodo ou euforia a gente provocar, maiores serão as mudanças.

E você aí com medo de falar sobre feminismo…

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Jéssica Ferrara
Jornalista com inclinações misteriosas por design e programação. Não sabe do que gosta mais: assistir a filmes antigos ou comprar livros novos e prometer a si mesma que lerá cada um deles até o final do mês. Apaixonada por debates que envolvam gênero e tudo que diz respeito à mulher e à sociedade.


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