Paradoxo da Beleza

Quando não nos importamos com a aparência, somos criticadas. Quando nos preocupamos, somos duplamente criticadas. Onde está a coerência?

Zigzag Black

Por Nathalia Levy

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Quando celebridades aparecem com cortes de cabelo diferentes, arriscam na maquiagem ou vestem roupas pouco usuais, as pessoas costumam reparar, comentar e perguntar. Se não houvesse julgamentos e ofensas, essa poderia ser uma prática saudável, que eventualmente nos levaria a questionar padrões estéticos e nos faria parar para pensar o porquê de sentirmos estranheza com certas “ousadias”. No mundo ideal, este seria o cenário no qual a atriz Renee Zellweger estaria inserida quando apareceu em um evento de moda, em outubro do ano passado.

O que aconteceu, entretanto, foi exatamente o contrário e, infelizmente, o esperado. Não sabemos se a artista fez ou não uma plástica em seu rosto e isso não deveria ser pauta. Afinal, acima da suposta preocupação jornalística em reportar os riscos de uma cirurgia “mal sucedida” (por que mesmo chamam de mal sucedida se ela está saudável e feliz?), deveria estar o poder de escolha de uma mulher que – principalmente no caso de celebridades – é ignorado. À época, tudo que Renee se limitou a comentar foi que estava se sentindo feliz. Após esta declaração, o que a imprensa decidiu fazer?

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“As quatro razões que levam o rosto de Renee Zellweger a realmente nos assustar”
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Pare o que você está fazendo: Renee Zellweger tem um rosto totalmente novo
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As mudanças do rosto de Renee Zellweger são estranhas? Fotos irreconhecíveis: rumores de cirurgia plástica, lift de olhos e injeções.
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O que Renee Zellweger fez com seu rosto? A atriz que interpretou Bridget surgiu profundamente irreconhecível ao sair com seu namorado em LA.

Mas não sejamos injustas, entre tantas chamadas sensacionalistas, também houve espaço para reflexões mais profundas, que levantaram a importante questão de como a mídia nunca está satisfeita com a aparência das mulheres, além de contribuir com a perpetuação de uma imagem inalcançável até para aquelas que deixam claro que estão felizes com o que são.

Stephanie Noelle, autora do blog Chez Noelle, repórter do site Petiscos, refletiu sobre o assunto: “Quando uma mulher lê que se ela for de tal jeito, se fizer tal coisa que escrevemos na revista, ela vai ser mais feliz, vai sentir mais prazer, vai ganhar mais dinheiro, isso acaba gerando uma certa dependência. Mas o problema é que ela nunca vai alcançar esses patamares, ela vai sempre sentir que falta alguma coisa porque as revistas sempre vão falar que falta alguma coisa. Os veículos agem como se eles fossem mostrar o caminho para as mulheres serem mais felizes e mais bonitas, mas felizmente enxergo que as meninas estão cada vez mais se questionando que talvez elas já sejam felizes e bonitas. Talvez um pouco da crise do jornalismo, pelo menos nesta área, se deva ao fato das leitoras já não sentirem que essas revistas conversam com elas”.

Aqui no Brasil, uma das celebridades que sofreu com as críticas em relação a sua aparência foi Anitta que, tão logo surgiu na mídia, começou a receber indagações sobre possíveis cirurgias plásticas.

A busca da imprensa por fotos antigas da cantora, que comprovassem que ela de fato tivesse realizado algum tipo de esforço para mudar o rosto e o corpo, foi incessante. Mais tarde, Anitta revelou que havia sido vítima de duas operações mal sucedidas e que precisou se submeter a mais dois procedimentos para arrumar os erros. A partir daí, novamente imprensa e público a receberam com julgamentos. Afinal, como é possível aceitar uma beleza não natural?

O contraditório é que a mídia cobra que mulheres estejam sempre impecáveis, baseadas em um padrão branco e um ideal de juventude: qualquer sinal de idade acaba virando manchete. Quando alguma delas resolve ceder à pressão dos padrões estéticos ocidentais, como Anitta, que buscou afinar o nariz, um novo bombardeio é feito. Aqui, enxergamos claramente o padrão branco imposto tanto a mulheres anônimas quanto a celebridades. Repare também no cabelo liso da cantora pós-fama.

Anitta antes e depois da fama.

Anitta antes e depois da fama.

Leia mais: Como a mídia influencia na construção da autoestima das mulheres negras

Uma matéria do BuzzFeed resumiu: “Essa reação negativa não tem a ver com o fato de que mulheres não devam fazer cirurgias plásticas, mas sim que as plásticas devem ser invisíveis, imperceptíveis. Cirurgia plástica boa é ok, mas cirurgia plástica ruim – aquela que é perceptível – é desprezível. Por quê? Porque ela prova que o trabalho de conquistar o ideal da feminilidade é exatamente isso: trabalho. E idealmente a feminilidade nunca se mostra como uma construção, ela deve se apresentar como algo natural”. Bingo! 

É fácil enxergar o fenômeno também com reportagens de maquiagem (quantas vezes você não leu uma matéria que dizia algo como “10 maneiras de você se maquiar para não parecer maquiada”) e de moda (você tem sempre que estar perfeitamente arrumada e vestida apropriadamente, mas não pode parecer desconfortável ou que passou muito tempo se arrumando).

Alexandra Pollard, do jornal The Guardian, fez uma interessante comparação quando discorria sobre a cantora Sia e seu direito de se esconder ao citar a música What Makes Beautiful, da banda adolescente One Direction, que pode ser usada aqui. Em determinado momento, a letra diz “Você não sabe que é bonita, e é isso que te deixa bonita”. E é essa a ideia que milhares de jovens meninas estão escutando: um verdadeiro paradoxo.

Para português, basta habilitar as legendas

Se você decide se esconder, como Sia decidiu, você é louca. Se você decide abraçar a ideia de aparecer para o mundo com roupas bonitas e maquiagem, não o faça demais, porque isso seria exibicionismo.

Você tem sempre que estar na medida certa entre pontos extremamente voláteis. A imprensa feminina estará sempre pronta para apontar, a cada estação, quais são esses novos limites e como não ultrapassá-los. “Criar desejo gera consumo. Enquanto a imprensa colocar uma noção de que falta alguma coisa, as leitoras vão buscar onde comprar. E isso gera movimento na economia, dinheiro, compras, consumismo. Na minha revista, eu não falava que faltava nada, e aí talvez as leitoras não fossem comprar nada. Mas tudo bem também. Talvez a gente arranje outro jeito de movimentar a economia sem fazer com que as mulheres se sintam mal.”, declarou Stephanie quando contou sobre a experiência de criar uma revista (ela produziu uma publicação feminista chamada Juno como projeto de conclusão de curso de jornalismo na USP).

No caso de Renee, uma rápida pesquisa no Google revela este paradoxo da beleza. O blog Não Sou Exposição fez o seguinte levantamento:

“2001 – Renée Zellweger engorda para interpretar “Bridget Jones”. O público pira.

2002 – Renée Zellweger emagrece para interpretar Roxie Hart, no musical “Chicago”. O público sofre.

2003 – Suspeita de cirurgia plástica. Nos lábios. O público perde o chão.

2005 – Renée Zellweger aplica botox. O público não consegue lidar.

2007 – Exagerou no peeling, Renée. Não!

2009 – Notamos que Renée já não é tão jovem. O público sente calafrios.

2010 – Huuum… Sentimos falta daquele seu rosto angelical, Renee. Você já não é mais uma menina.

2013 – Overdose de botox?! Ela não tem rugas!

2014 – O QUE ACONTECEU COM SEU ROSTO, RENÉE, DEUS DO CÉU!!”

As críticas em relação às aparências de Sia, Renee Zellweger, Anitta e, mais recentemente, Uma Thurman são a clara representação do que a mídia tenta passar para todas as mulheres: corresponda sempre aos padrões estéticos estabelecidos e não mostre que você se esforça para isso. Quando você chegar perto de alcançar o padrão e se sentir bonita, não comemore, guarde este sentimento para você. Porém, não se esconda demais, é preciso mostrar para outras pessoas que você é bonita.

Uma Thurman
Uma Thurman foi duramente criticada por, aparentemente, ter feito plásticas. Mais tarde, quando foi descoberto que era apenas uma nova técnica de maquiagem, ela também foi criticada. “A atriz de 44 anos chamou atenção pelos motivos errados ao aparecer com a testa suave, rosto inchado e sorriso extremamente apertado.”, escreveu o Mail Online.
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Nathalia Levy
Ama o jornalismo, mas também queria estar fazendo design gráfico, cursos de programação, aprendendo a ilustrar e estudando ciência política. Pretende juntar todas essas paixões para discutir questões de gênero.


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