Nora vs. Sogra

Quando um programa de televisão reforça a competição entre mulheres e a estrutura do patriarcado

Zigzag Black

Por Jéssica Ferrara

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Vou começar o texto da maneira mais sincera possível: com um post que fiz no Facebook no dia em que resolvi assistir Ana Maria Braga durante meu café da manhã:

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O quadro “A Minha é Melhor que a Sua” foi inspirado em uma série antiga do programa, em que dois cozinheiros deveriam preparar a mesma receita, e depois, um terceiro convidado tentava acertar de quem era cada prato. Mas aí, nas palavras de Ana Maria Braga, eles resolveram ‘apimentar a conversa’ e fizeram uma versão nora vs. sogra. “As duas concorrentes, ou oponentes, vão estar com a mão na massa logo mais. Elas têm 45 minutos para preparar um prato escolhido pelo filho e pelo marido, que é a mesma pessoa. Diego, com muito bom humor, aceitou participar da brincadeira. Agora ele aguarda lá, sentadinho no camarim”, explica a apresentadora.

No vídeo, a sogra reproduz falas que reforçam estereótipos machistas, como a competição entre mulheres: “O Diego era supercompanheiro. Será que ele vai conseguir ficar longe da mãe?” e “Eu não sei se ela vai cuidar muito bem do Diego. Nem se vai dar conta. Ele é muito exigente com a comida, com as roupas…”. A coisa toda me pareceu forçada. Ambas “brigavam” pela posição de “favorita” do homem, e este sempre aparecia no VT dando risada com a disputa de atenção.

 

Sogra, genro, madrasta. Por mais que outros membros da família tenham os seus próprios estigmas, a sogra virou praticamente um personagem, um arquétipo de estereótipos negativos. Quer exemplo melhor que a letra da música ‘Sequestraram minha sogra’, de Bezerra da Silva? “Sequestraram minha sogra, bem feito pro sequestrador. Ao invés de pagar o resgate, foi ele quem me pagou. Ele pagou o preço da mala que ele que ele carregou”.

Para a antropóloga Eliana Dancini, da Universidade Estadual Paulista, entrevistada pela SuperInteressante para a matéria “Por que sogras têm má fama?”, o mito é cultural. “Trata-se de um desdobramento das questões de gênero, resultado da estrutura patriarcal da família, na qual o homem está no topo da hierarquia e a mulher serve só para as tarefas domésticas”. Logo, a mulher no papel de sogra é um indivíduo que perdeu suas funções na instituição e acaba sendo “estereotipada como alguém que não tem nada pra fazer a não ser incomodar”.

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(Foto: Reprodução)

Historicamente, sabemos que as mulheres foram criadas para casar, e os homens não. Eles foram educados para serem provedores. E o que acontece quando um dos que sustentam financeiramente a família sai de casa para se casar? A esposa ganha status de rival para a mãe que antes era sustentada. Se o filho não saía de casa, ele trazia a esposa para morar junto com a família, e a convivência poderia não ser a das melhores, principalmente pela construção patriarcal que envolvia a instituição homem-mulher-família.

O quadro apresentando no programa de Ana Maria Braga reproduziu e reforçou toda essa estrutura. É importante lembrar que não é um problema você ser mulher e gostar de cozinhar para seus amigos, seu marido ou sua família. Mas, queremos deixar claro que você tem escolhas e que não precisa seguir qualquer tipo de pressão social. Parafraseando o texto ‘Você nasceu para isso: ser um milhão em uma’, da Capitolina, é muito fácil acreditar em uma função pré-estabelecida, que não é real, e acabar tomando a expectativa alheia sobre nós como verdade absoluta. “Mais do que isso: aceitá-la é acreditar que somos limitadas, quando na verdade somos infinitas …”, escreveu Beatriz Trevisan, autora do texto.

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Jéssica Ferrara
Jornalista com inclinações misteriosas por design e programação. Não sabe do que gosta mais: assistir a filmes antigos ou comprar livros novos e prometer a si mesma que lerá cada um deles até o final do mês. Apaixonada por debates que envolvam gênero e tudo que diz respeito à mulher e à sociedade.


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