“Não, não somos todos Maju”

Sobre o racismo velado, o reconhecimento de privilégios e a indignação seletiva. Três militantes do movimento negro discutem o assunto.

Zigzag Black

Por Jéssica Ferrara

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No início de julho, a jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, foi vítima de comentários racistas em um post publicado na página oficial do Jornal Nacional no Facebook. Desde então, a comoção e a indignação foram generalizadas, ganhando espaço nas redes sociais e nos posts inflamados: “Como um país como o Brasil, fruto da miscigenação e da diversidade, pode ser racista? E ainda em pleno século XXI?”. Sim, o país é racista. Não somos mestiços por acaso. As relações interraciais nada mais eram do que uma tática para embranquecer a população. Portanto, assumir nossa diversidade cultural não nos torna imunes aos estereótipos e aos estigmas criados por mais de 300 anos de escravidão nos países ocidentais. Entrevistamos as jornalistas e militantes do movimento negro Djamila Ribeiro, Jarid Arraes e Lola Ferreira para falar sobre o racismo velado, o reconhecimento de privilégios e a indignação seletiva.

“Aos que dizem ‘em pleno século XXI e isso ainda acontece’, falta conhecimento da história do Brasil. O país foi fundado no racismo. Ele é estrutural, é normativo. Eu fico surpresa com a surpresa dessas pessoas”, declarou Djamila Ribeiro, filósofa e colunista da Carta Capital, durante a mesa de debates “Raça e Gênero: a mulher negra em cena”, sediada pela Faculdade Cásper Líbero. “Não precisa ler Frantz Fanon para enxergar isso. Em um país com 52% de população negra, por que as pessoas ficam chocadas ao ler os comentários racistas direcionados a Maju, mas não se surpreendem com a ausência de negros na televisão? Não dá para se revoltar com o que aconteceu com a jornalista, mas se calar quando é com o menino da periferia”, explicou.

Em abril de 2015, a jornalista Maria Julia Coutinho foi escalada para apresentar ao vivo as previsão do tempo do Jornal Nacional. E em julho, do mesmo ano, foi alvo de comentários racistas na web.

Em abril de 2015, a jornalista Maria Julia Coutinho foi escalada para apresentar ao vivo as previsão do tempo do Jornal Nacional. E em julho, do mesmo ano, foi alvo de comentários racistas na web. (Foto: Reprodução/Twitter)

É claro que todo o movimento a favor de Maju foi válido. Mas é necessário problematizar. “Não somos todos Maju. Acho esse tipo de movimento um desserviço. Quer dizer então que todas essas pessoas sofreram junto com Maju? Não. Maria Júlia sofreu e sofre diariamente uma violência que muitas pessoas nunca irão sofrer na vida.”, declarou a jovem Lola Ferreira, colaborada da revista Capitolina e militante do movimento negro. A questão gira em torno de uma grande falácia. Somos todos Maju, mas não conseguimos identificar uma chacina em Osasco como um ato racista, por exemplo. 

A revista Galileu do mês de setembro trouxe a descriminação racial como assunto para a sua capa. Na matéria, explica-se que o preconceito é um fenômeno do cérebro chamado de viés inconsciente, que faz com que as pessoas disseminem o racismo sem perceber: “A descriminação de cor se manifesta de forma aberta e velada. No Brasil, a forma aberta faz parte de episódios de conflitos diretos. O número de assassinatos de jovens negros periféricos é um exemplo disso. Já a descriminação velada faz com que conflitos raciais sejam minimizados como um mero mal-entendido”.

A jornalista Vanessa Rodrigues, co-fundadora do coletivo feminista Casa de Lua, exemplificou o que é a indignação seletiva: “Na marcha ‘Fora Dilma’ que ocorreu no dia 16 de agosto em São Paulo, duas atrizes que faziam referência à chacina em Osasco faziam uma performance. Uma fingia estar morta e a outra interpretava a mãe, chorando, sofrendo. Um repórter perguntou a uma mulher vestida com a camiseta do Brasil o que ela estava achando da cena teatral. Em resposta, a entrevistada disse que ali não era o lugar para fazer isso. ‘E por que não?’, perguntou o repórter. ‘Porque isso aconteceu na periferia, e o que acontece na periferia é para ficar na periferia’.

Jarid Arraes, colunista da revista Forúm e colaboradora do Blogueiras Negras, considera a mídia uma das grandes responsáveis por disseminar o racismo. “O movimento em si foi muito hipócrita. Esse racismo que a Maju sofreu foi e é fomentado pela própria emissora. Precisamos de mais jornalistas negros, não só Maju. Precisamos de mais atrizes negras, não só Sheron Menezzes e Taís Araújo. O racismo está presente em todos os lugares, e quase nunca de forma sutil”, disse Jarid. No entanto, não podemos deixar de celebrar a presença de Maria Júlia Coutinho em rede nacional. A jornalista é negra e ostenta um poderoso cabelo blackpower. “É lindo ver uma mulher maravilhosa como aquela na televisão. Com um cabelo igual ao meu, assumindo uma posição de destaque em um dos jornais mais vistos no Brasil, é empoderador. Isso é para se celebrar, porque sabemos muito bem que quanto mais a mulher negra é embranquecida (cabelos lisos, maquiagens que clareiam o tom da pele…), mais atenção ela ganha da mídia”, explica a colunista.

Leia também: Como a mídia afeta a autoestima das mulheres negras

Lola Ferreira concorda que a inclusão, muitas vezes, é falsa, mas reitera a importância que o debate sobre Maju teve para a luta contra o preconceito. “A forma como ela lidou foi linda de se ver. Ela não se rendeu. Ela não caiu. A vitória é dela. Deve-se naturalizar que somos capazes. Ninguém nunca espera nada da gente, então, temos que ganhar tudo o que disseram que a gente nunca iria ganhar”, disse Lola.

A frase “Os preconceituosos ladram, mas a caravana passa”, presente na resposta de Maju aos comentários racistas, entrou na casa de muita gente e falou com muita gente. Maju é mais uma mulher negra lutando para ser sujeito em uma sociedade que a vê como objeto. Pior do que perpetuar o discurso racista, é se isentar do discurso, deixando de lado mudanças e contribuições importantes para o movimento contra o racismo. Não somos todos Maju, mas fica aqui toda solidariedade, empatia e sororidade pela luta diária dela e de todas as mulheres negras perante a sociedade.

Assista ao nosso vídeo: A representação das mulheres negras na mídia

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Jéssica Ferrara
Jornalista com inclinações misteriosas por design e programação. Não sabe do que gosta mais: assistir a filmes antigos ou comprar livros novos e prometer a si mesma que lerá cada um deles até o final do mês. Apaixonada por debates que envolvam gênero e tudo que diz respeito à mulher e à sociedade.


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