“Não foi a minha intenção”

Um pedido de desculpas é importante? Com certeza! Mas não é suficiente. A mídia tradicional precisa rever seus ideais

Zigzag Black

Por Nathalia Levy

HOaME_Retratacoes_DescupasA capa da revista vem com uma modelo magra e chamadas para matérias que incentivam a perda de peso. Uma linha acima no layout, “O que eles mais gostam na sua maquiagem”. Na manchete principal, “Seja você mesma. O importante é se aceitar e ser feliz”.

Há anos as revistas decidem o que nós vamos ler naquela semana. Aparentemente, elas sabem o que é melhor para a nossa autoestima e publicam, muitas vezes porque as editoras já entraram no modo automático, dicas para alcançarmos um padrão que, vale notar, foi imposto antes mesmo delas pensarem em fazer jornalismo.

Elas ainda acreditam que esse padrão é o desejo de todas as mulheres…

Chegamos em 2015 e foi a vez dessas revistas experimentarem a resposta da internet e o avanço do feminismo. Elas assistiram às suas fórmulas prontas começarem a desmoronar e não reagiram muito bem. Aqui, destacamos três casos e suas respectivas respostas:

 

Glamour e a gordofobia

O post da revista é um exemplo claro da perpetuação de valores estipulados há anos e que ainda não foram desconstruídos. É também uma amostra da contradição em que a grande mídia feminina se encontra: elas querem falar de diversidade, já que o assunto entrou na moda (fazem edições especiais plus size, colocam mulheres negras em um editorial inteirinho para elas), mas não param para reavaliar o conteúdo que publicam mensalmente. O resultado soa falso, uma tentativa de capitalizar em cima de uma discussão que não deveria ser apenas pauta, mas linha editorial. 

Este trecho mostra exatamente como, apesar das críticas, a revista ainda não internalizou que as mulheres não possuem os mesmo anseios. Quem foi que disse que todo mundo quer ser magra, ir à academia e que comer o que quiser significa “jacar”?

“Ao publicá-lo pensamos apenas no espírito da segunda-feira: aquele em que dizemos pras nossas amigas que não fomos pra academia ou “jacamos” no fim de semana, sabe?”. É claro que existem aquelas que compartilham desse pensamento, mas como veículo de comunicação, está na hora de aumentar a representatividade.

TPM e a campanha #mandanude

No post de esclarecimento, elas escreveram que queriam “abordar, discutir e questionar esse fenômeno espalhado pelas redes sociais e aplicativos, disponibilizando um espaço editorial para homens e mulheres, maiores de 18 anos, exercitarem a autonomia e a infinita diversidade de seus corpos.” A questão aqui é: como saber se as pessoas que estão mandando as fotos são elas mesmas? Se elas têm mais de 18 anos? Será que esta é realmente uma boa forma de abordar um assunto tão sério?

Atrevida em “Quem pediu a opinião masculina?”

A Revista Atrevida já havia entrado em outra polêmica com a matéria ” Os makes que os garotos não curtem nas meninas”. Em outros tempos, ela seria apenas mais uma dentre tantas outras parecidas. Mas em abril de 2015, uma enxurrada de comentários negativos tomou conta do Facebook da publicação, com várias meninas falando que não precisavam de aprovação de homens.

Recentemente, uma trecho de uma entrevista publicada na edição de janeiro voltou à tona pelo mesmo motivo. A opinião de um integrante de uma boy band brasileira foi resgatada e altamente criticada. Além de evidenciarem o racismo existente no conteúdo, também foi colocada em evidência a decisão da revista em fazer este tipo de pergunta.

O que esses três pedidos de desculpas têm em comum? A palavra intenção. É claro que não houve a intenção de ofender. Que veículo em sã consciência colocaria sua reputação em risco com um post em que a intenção seria fazer mal a alguém?

O que deve ser destacado, entretanto, é que em todas as respostas, sempre existe a preocupação de jogar a responsabilidade para o leitor. “Você que entendeu nossa intenção errado”. Falta parar, ler e reavaliar os estereótipos que continuam sendo reproduzidos sem reflexão.

A boa notícia é que as mulheres, e principalmente as meninas, não estão mais aceitando o papel de meras receptoras de conteúdo. Elas estão pressionando, aumentando a voz e transformando o modo como gostariam de ser reportadas. A parte da mídia que não abrir os olhos para essa demanda popular está, provavelmente, fadada à extinção.

Este vídeo, feito pela vlogger e apresentadora da MTV Franchesca Ramsey, vale a pena ser assistido. Ele discorre sobre pedidos de desculpas ao falarmos de estruturas historicamente opressoras:

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Nathalia Levy
Ama o jornalismo, mas também queria estar fazendo design gráfico, cursos de programação, aprendendo a ilustrar e estudando ciência política. Pretende juntar todas essas paixões para discutir questões de gênero.


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