Onde estão as modelos negras?

Revistas colocam a culpa na sociedade e se eximem da responsabilidade... Está na hora de discutir o papel da mídia.

Zigzag Black

Por Nathalia Levy

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Se você gosta de moda, provavelmente acompanhou a última edição do São Paulo Fashion Week – a semana de moda mais importante da América Latina – e seus 38 desfiles. Dentre tendências do próximo verão e fotos de celebridades circulando pela locação, há um fato que deveria ter chamado atenção, mas foi, mais uma vez, deixado de lado pela cobertura da mídia especializada: a falta de modelos negras na passarela. Curiosamente, esta temporada ficou marcada pelas coleções que homenageavam o Brasil, com vários estilistas dizendo que suas inspirações vieram da Bahia.

Para comprovar, faça um exercício: entre no FFW (o site oficial do São Paulo Fashion Week), vá até a aba desfiles e observe atentamente cada uma das apresentações. A estilista Giuliana Romanno, por exemplo, uma das que declaradamente buscou referências na Bahia, mostrou 23 looks e apenas uma modelo negra foi contratada – vale ressaltar, que ela tem olhos claros e seus traços são finos. Já no desfile da Têca, que se inspirou nos Orixás da Bahia, na crença do Candomblé e no axé, foram 27 entradas de modelos e o número de negras foi um pouco maior: nove.

A pergunta que fica é: será falta de interesse dos estilistas e diretores de casting ou falta de representantes disponíveis no mercado? Para Higor Bastos, editor e criador do FFW Models, “há meninas negras lindas de sobra, e o problema é, sim, a falta de interesse de muitos profissionais em apostar nelas”. Mesmo assim, não há como negar que, nas agências tradicionais, mulheres caucasianas ainda são maioria. A culpa seria, então, dessas agências?

A resposta é sim e não, uma vez que elas trabalham por demanda e, caso as marcas e revistas demonstrassem mais interesse, elas provavelmente começariam a ir atrás de mais meninas negras. “Uma das questões é responsabilidade do cliente. É ele quem aprova que tipo de perfil irá representar sua marca, seja em desfile, campanha ou anúncio publicitário. Eu, pessoalmente, acho que também existe um conformismo, uma certa preguiça na busca por tipos mais diversos, não apenas de negras, mas de orientais, mestiços, ruivas. É preciso procurar além do que já estabelecido como padrão de sucesso.”, diz a jornalista de moda Camila Yahn, editora de conteúdo do portal FFW.

Os scouters (profissionais que viajam o país em busca de novos rostos) estão acostumados a vasculhar as menores e mais isoladas cidades do Brasil. Entretanto, o foco se mantém no Sul e no Sudeste.

A conclusão é que o contexto histórico racista ocidental também se aplica à moda. “Se hoje você tem 5,1% de negros em campanhas, antigamente esse número não chegava nem a 1,5%. Há um crescimento, mas lento, que poderia ser maior e mais rápido. Esta ideia fixa de que a beleza branca de padrões europeus é o padrão a ser seguido pela sociedade está com o prazo de validade vencido há muito tempo”, comenta Higor. “Infelizmente, o preconceito está enraizado na sociedade e é algo histórico. Estamos em 2015, e ainda assim insistem em separar as pessoas pela cor ou sexo. É extremamente ridículo. A indústria da moda por muito tempo se focou em mercados em que, diziam eles, ‘a beleza negra não vendia’. Ora, como não vende? Negro não compra roupa? Nunca entendi esse conceito de ‘negro não vender’”, completa o editor.

Ainda não é possível dizer que vivemos um cenário em que a representatividade virou preocupação, já que um levantamento do site theFashionSpot revelou que nas 577 campanhas de Verão 2015 internacionais (811 modelos), 84,7% eram caucasianas, 5,7% asiáticos, 5,1% negros e 2,3% latinos. Entretanto, podemos enxergar pequenas mudanças graduais. A Dior, por exemplo, escalou pela primeira vez, em seus 69 anos de existência, uma garota-propaganda negra: Rihanna. O atual estilista da grife, em atividade desde 2012, já havia sofrido críticas por escolher apenas meninas brancas para seus desfiles. Portanto, colocar a cantora como rosto de uma de suas mais importantes campanhas, que será veiculada em dezenas de revistas de moda, é algo a ser comemorado, visto que quando entramos no quesito divas da música e do cinema, seu histórico de escolhas girava em torno de Jennifer Lawrence, Marion Cotillard e Charlize Theron.

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(Foto: Divulgação)

Ainda neste ano, as edições francesa e britânica da revista Vogue quebraram um regime de cinco e 12 anos, respectivamente, exclusivamente de modelos brancas em suas capas, com Jourdan Dunn na primeira e Lyia Kebede na segunda. “A moda está passando por este processo de se atualizar e se redescobrir, abrindo as portas do mercado e mudando o seu estereótipo de beleza.”, continua Higor, que se mostra otimista para o futuro. “Isso é apenas o começo. Agora, com a nova geração entrando no comando, parece – e espero – que as coisas finalmente comecem a mudar. Lembra do preconceito enraizado que eu tinha comentado antes? Então, este faz parte de toda uma geração de antigos profissionais ainda ativos no mercado, mas o novo está vindo com tudo. E o novo é fresh, livre e, espero eu, diferente de seus antepassados.”, conclui.

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(Foto: Reprodução)

Ao que tudo indica, a moda está começando a escutar as vozes das ruas. Ainda que a ideia principal continue sendo vender seus produtos, representar pessoas de diferentes etnias, corpos e gêneros é um ato de extrema importância social. De um ano para cá, a Diesel, a DKNY, a Marc Jacobs e a See by Chloé buscaram nas redes sociais novos porta-vozes para suas campanhas, enquanto marcas de cosméticos como Make Up Forever, Redken e Clean & Clear apresentaram transexuais como suas garotas-propagandas.

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O maior problema é que a mídia continua culpando a sociedade a fim de legitimar suas escolhas pouco representativas. A imprensa e a publicidade repousam em suas fórmulas ultrapassadas, mas a boa notícia é que os leitores passaram a pressionar as mudanças.

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“Acho sim que marcas e revistas têm essa responsabilidade. Na FFWMAG, nós trabalhamos muito com modelos negras (os) e prezamos pela busca de perfis não óbvios, diversos que, para a gente, é total riqueza. Estamos sempre em busca de diversidade e acho que é um papel muito importante e que pode inspirar e interferir em escolhas de outras revistas e/ou diretores de casting.”, termina Camila.

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Nathalia Levy
Ama o jornalismo, mas também queria estar fazendo design gráfico, cursos de programação, aprendendo a ilustrar e estudando ciência política. Pretende juntar todas essas paixões para discutir questões de gênero.


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