#ImNoAngel

A campanha #ImNoAngel gerou comoção e engajamento nas redes sociais, mas até que ponto outros biotipos estão ganhando espaço na mídia?

Zigzag Black

Por Jéssica Ferrara

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“Já imaginou o quão chato seria se todas nós fôssemos iguais?”. É com esta pergunta que Linda Heasley, presidente da marca Lane Bryant, lançou sua nova coleção de lingerie, Cacique, em abril. A campanha, que promete redefinir o sexy, chegou com um time e tanto de modelos conhecidas no segmento Plus Size filmadas em poses sensuais e superconfiantes. Frases como: “A beleza está muito além do tamanho de um manequim” e “A perfeição é oversizedtambém estão ligadas ao anúncio. Porém, o grande apelo da campanha fica por conta do uso da hashtag #ImNoAngel (#EuNãoSouUmaAngel, em tradução livre).

Modelos como Alessandra Ambrosio e Adriana Lima, brasileiras que integram o time das angels da marca norte americana de lingerie Victoria’s Secret, seguem um padrão que a gente já conhece: corpos esguios e manequins tamanho 36 – ou seria 34?

A hashtag #ImNoAngel nada mais é do que o afastamento deste estereótipo. Uma prova de que mulheres que não se encaixam no padrão “Victoria’s Secret” podem e devem usar lingeries sensuais.

Entrevistamos algumas meninas integrantes do grupo de discussões feminista Think Olga sobre a ação e todo o conceito que girou em torno dela. A jornalista Carol Patrocínio, uma das colaboradoras do site Lugar de Mulher, considera propagandas como essa positivas, mas as modelos escaladas, que deveriam representar mulheres gordas, não são gordas. “São mulheres altas e que proporcionalmente pesam mais. Elas têm estrutura maior.  Ver essas mulheres maravilhosas não me deixa mais forte, apenas me lembra que meu corpo é gordo de verdade”, declarou. “Você percebe que não se encaixa no padrão magro e as mulheres que deveriam representar você simplesmente não representam.”

A arquivista Beatriz Pimentel já foi agenciada para ser modelo e diz que a indústria faz escolhas palatáveis, pautadas no limite de até onde é aceitável ser gorda. “Infelizmente, as modelos plus size também seguem um padrão: rostos finos, cinturas marcadas e nada de barriga, braços e pernas flácidas”, explicou. O termo plus size vem sendo problematizado por muitas mulheres, não só porque ele é, na verdade, uma maneira de eufemizar a palavra gorda, de deixar a fala mais aceitável para quem fala e para quem ouve, mas também porque ele não contempla todos os corpos da mulher gorda.

A modelo britânica Stefania Ferrario criticou o termo em sua conta no Instagram: “Eu não acho isso empoderador e não fico orgulhosa de ser chamada de modelo Plus Size. Eu fico orgulhosa de ser chamada de modelo, ponto. Esta é a minha profissão, assim como a de todas as tops”. (Foto: Instagram)

A hashtag #DropThePlus (#AbandoneOPlus, em tradução livre) evidencia o problema e pede para que o termo caía em desuso. A iniciativa partiu da apresentadora de TV australiana Ajay Rochester, que escreveu nas redes sociais: “Eu olhava para a foto de uma modelo considerada plus size e pensava: se essa mulher é ‘plus size’, o que são as outras? Não existe nenhum PLUS neste corpo, aliás, se ela perder alguns quilos não sobrará nada dela”. A campanha ganhou o apoio da modelo considerada ‘plus-size’ Stefania Ferrario, que postou uma foto em seu Instagram com os dizeres: “Sou modelo – PONTO”. “Apenas três tamanhos da escala norte-americana são aceitos. A partir do tamanho 40 as mulheres se sentem aprisionadas nestas categorias e a única forma de sair dessa armadilha é passando fome”, disse Stefania.

 

Antes de lançar sua coleção Cacique, a marca Lane Bryant alterou o uso do termo “plus size” por “her size” (tamanho dela) em sua confecção, exibindo um novo posicionamento para promover uma imagem corporal positiva das mulheres.

De volta à ação #ImNoAngel, começamos a nos questionar sobre os dizeres da hashtag e o ataque direto à marca Victoria’s Secret. Será que a campanha poderia reforçar a competição entre mulheres? Indo mais longe, “não ser nenhum anjo” poderia dar vazão ao apelo à sexualidade, que mulheres com curvas são sexy – para os homens?

A cantora Meghan Trainor ficou conhecida pelo hit 'All About that Bass' (Foto: Reprodução)

A cantora Meghan Trainor ficou conhecida pelo hit ‘All About that Bass’. (Foto: Reprodução)

O questionamento vem ao encontro da música “All About that Bass”, de Meghan Trainor, que com trechos como “Cause every inch of you is perfect, from the bottom to the top”(Cada pedacinho de você é perfeito, dos pés à cabeça, em tradução livre) alcançou os primeiros lugares da Billboard e do iTunes. A letra, que também critica o uso excessivo de Photoshop pelas revistas, porém, desliza em alguns momentos:

“Yeah, my momma she told me don’t worry about your size/She says, boys they like a little more booty to hold at night” (É, minha mãe me disse “não se preocupe com seu peso”. Ela diz: os meninos gostam de um pouco mais de bunda para apertar à noite – Tradução livre).

Trocar a ditadura da beleza presente nas revistas de moda pelo padrão imposto pelos homens é contraditório, é querer trocar uma ditadura por outra.

As modelos Ashley Graham, Candice Huffine, Marquita Pring, Victoria Lee, Elly Mayday e Justine Legault para a campanha #ImNoAngel, da Cacique.

As modelos Ashley Graham, Candice Huffine, Marquita Pring, Victoria Lee, Elly Mayday e Justine Legault para a campanha #ImNoAngel, da Cacique. (Foto: Divulgação)

No trecho, “I’m bringing booty back, go ahead and tell them skinny bitches: Hey” (Estou trazendo as bundas de volta, vá e diga a essas vadias magrelas ‘E aí’ – Tradução livre) o termo ‘skinny bitch’ é completamente pejorativo e vem sendo comumente usado em diálogos em prol da valorização de outros tipos de corpos.

A designer e também integrante do grupo de discussões feminista Think Olga, Débora Formin, não gostou do desmerecimento da mulher magra na campanha #ImNoAngel. “Me incomodou demais. Sofrer preconceito não te dá passe livre para ser preconceituoso. A nossa luta é contra o padrão de beleza e a favor da igualdade, e não para criarmos um novo padrão de beleza, no qual ser gorda é mais bonito que ser magra. Não estamos fazendo nenhum favor à nossa causa, e colocar umas contra as outras é o oposto de empoderamento”, declarou. A empreendedora e entusiasta do segmento plus size, Isadora Gomes, pensa diferente. “Dizer que estamos atacando magras para nos valorizar é partir de uma falsa simetria. São as mulheres gordas que são marginalizadas socialmente, e não as magras”, explicou.

Ambas estão certas. A questão é que as tais das “vadias magrelas”, citadas em músicas do exterior, não são necessariamente culpadas por pertencer ao padrão de beleza opressor. Por mais que a magreza seja valorizada, ser magra não significa ser imune a sociedade machista. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de mencionar que comparar o sofrimento de uma menina gorda com o de uma magra é completamente injusto. Magras possuem mais privilégios.

The Perfect Body, campanha da Victoria's Secret

A campanha da Cacique foi feito em resposta à campanha polêmica de 2014 da Victoria’s Secret celebrando o “corpo perfeito”, que recebeu duras críticas. (Foto: Divulgação)

Depois, a marca mudou o slogan para ‘Um corpo para todos’, o que não deu muito certo também. (Foto: Divulgação)

Depois, a marca mudou o slogan para ‘Um corpo para todos’, o que não deu muito certo também. (Foto: Divulgação)

Voltando ao anúncio da Lane Bryant, a hashtag foi uma alfinetada à campanha da mainstream Victoria’s Secret, sim. O anúncio é um protesto. Linda Heasley, em entrevista à Glamour US, declarou: “A campanha quer empoderar todas as mulheres a amarem cada pedacinho do seu corpo. Lane Bryant acredita que todas as mulheres são sexy e encoraja cada uma delas a mostrar isso de sua própria maneira.”

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Jéssica Ferrara
Jornalista com inclinações misteriosas por design e programação. Não sabe do que gosta mais: assistir a filmes antigos ou comprar livros novos e prometer a si mesma que lerá cada um deles até o final do mês. Apaixonada por debates que envolvam gênero e tudo que diz respeito à mulher e à sociedade.


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