Crime passional, não. Feminicídio

A cobertura de feminicídios é, em sua grande maioria, culpabilizante, condescendente com o agressor, e repleta de especulações sobre possíveis comportamentos da mulher

Zigzag Black

Por Jéssica Ferrara

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“Mandante pagou R$ 1 mil para matar jovem de 21 anos em MG. Segundo o delegado, o suspeito cometeu o crime por ciúmes. O motivo teria sido passional.” 

“Ex-namorado de bailarina confessa crime: ‘Fiquei com ela morta dois dias’. Anderson Leitão disse que estrangulou Ana Carolina por ciúmes. “

“Brasileiras estão unidas por uma tragédia em comum: tiveram decepados mãos, pés, dedos, seios ou orelhas, a pele rasgada por facão ou o rosto desfigurado por namorados e ex-maridos.”

Estas chamadas são reais e você com certeza leu alguma delas durante esta semana. Histórias trágicas, de arrepiar até o último fio de cabelo e provocar um revertério geral no estômago. Mulheres decepadas, desfiguradas, mortas por seus parceiros ou ex-parceiros. Identidades destruídas em uma tentativa sórdida de afirmação do poder do homem sobre a mulher. Crimes assim são chamados pela mídia de ‘passionais’, cometidos por ‘excesso de paixão’ ou ‘por amor’.

E que tipo de ‘amor’ é esse? Em que sequer estas mulheres são consideradas como sujeito? São igualadas a objeto. São desumanizadas. Posses que podem ser perdidas, roubadas e cobiçadas a qualquer momento. E devem pagar se caso isso aconteça. Afinal, se não são deles, não devem ser de mais ninguém, não é? Não. Não se trata de um crime passional. Trata-se de um crime de ódio. De um feminicídio.

“O machismo faz com que o mais medíocre dos homens se sinta um semideus diante de uma mulher.” (Simone de Beauvoir)

“Li que uma mulher teve as mãos decepadas pelo marido, e uma das narrativas que permeavam a história era sobre o perdão. Quase sempre, quando vemos estes tipos de matérias, há uma pressão, quase que uma coação para que a mulher agredida fale se perdoa o seu agressor ou não. É absurdo”, relata Vanessa Rodrigues, jornalista e co-fundadora do coletivo feminista Casa de Lua. A cobertura de feminicídios é, em sua grande maioria, culpabilizante, condescendente com o agressor, e repleta de especulações sobre possíveis comportamentos da mulher, como exemplifica Vanessa: “Nessa mesma notícia, o jornal publicou uma entrevista com perguntas feitas pelos internautas para a vítima, e uma delas questionava ‘o que ela teria feito para deixar o marido tão nervoso ?’ O jornal teve a coragem de legitimar esse tipo de questão tão descabida”.

No último domingo (01/10), o programa Fantástico exibiu uma entrevista com a cantora Joelma sobre a sua separação com Chimbinha. Durante a conversa, ela relatou casos de violência doméstica e uma tentativa de assassinato. Diante deste contexto, a repórter fez duas perguntas que elucidam a discussão do parágrafo anterior: se existia a possibilidade de reatar o casamento e qual teria sido o motivo do espancamento. É assustador a normatização destas questões em relatos de violência contra a mulher. Não deveriam nem entrar em pauta.

“O Feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher. Suas motivações mais usuais são o ódio, o desprezo ou o sentimento de perda do controle e da propriedade sobre as mulheres, comuns em sociedades marcadas pela associação de papéis discriminatórios ao feminino, como é o caso brasileiro.” (Dossiê Violência contra as Mulheres)

“Quando falamos em racismo, as notícias trazem o conceito de injúria racial. Talvez porque entende-se, finalmente, que é crime, afinal, está na lei há mais tempo. Já com o feminicídio isso não acontece. O discurso é o mesmo: o velho ‘vai saber o que ela aprontou, não é mesmo?’”, diz Vanessa Rodrigues. Em março deste ano foi sancionada a lei que inclui o feminicídio entre os crimes hediondos, como o estupro, o genocídio e o latrocínio. A Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015) torna homicídio qualificado o assassinato de mulheres em razão do gênero. Ou seja, por serem mulheres.

Luiza Bairros, doutora em Sociologia pela Universidade de Michigan e ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), explicou para o Instituto Patricia Galvão que não é a violência que cria a cultura, mas sim, a cultura que define o que é violência. “É ela que vai aceitar violências em maior ou menor grau a depender do ponto em que nós estejamos enquanto sociedade humana, do ponto de compreensão do que seja a prática violenta ou não.”

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Com o Brasil ranqueado entre os países com maior índice de homicídios femininos, e com certos indivíduos ridicularizando a importância do movimento feminista e de temas urgentes como o da redação do Enem neste ano, fica mais do que claro qual é o tipo de cultura vigente na sociedade atual brasileira: machista e culpabilizadora. Que pergunta constantemente para que serve o feminismo. Que pede menos ‘mimimi’. E indaga aonde foi parar o humor, enquanto mulheres morrem. Mutiladas e assassinadas.

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Jéssica Ferrara
Jornalista com inclinações misteriosas por design e programação. Não sabe do que gosta mais: assistir a filmes antigos ou comprar livros novos e prometer a si mesma que lerá cada um deles até o final do mês. Apaixonada por debates que envolvam gênero e tudo que diz respeito à mulher e à sociedade.


4 respostas para “Crime passional, não. Feminicídio”

  1. Bruna disse:

    É triste, eu sei, mas o feminismo ainda irá demorar pra surtir algum efeito no mundo. Vou tentar explicar o porque. Moro em uma cidade de 28.000 habitantes, interior do Paraná, sou cabeleireira, ou seja, acabo ouvindo muitas coisas. Dentre as coisas que eu mais ouço estão:”eu fiz meu papel de mulher”, “mulheres virtuosas”, “ele não pode saber que eu comprei isso”, “meu marido/namorado não gosta de cabelo curto, unha dessa cor, roupa assim, assado”, blá, blá, blá…Sério, eu perco a fé na humanidade cada vez que eu escuto uma asneira dessas, porque a própria mulher se rebaixa. E não só de cunho machista, mas preconceituoso também, “nossa que horror duas mulheres se beijando na novela”, “não tenho nada contra, mas é pecado”, blá, blá, blá…Se existisse deus, com certeza ele já tinha mandado os 3 cavaleiros do apocalipse pra acabar com tudo isso. Eu namoro, há pouco mais de um ano, desde o início eu deixei claro sobre a minha pessoa e tive a sorte de ter um namorado, digamos, feminista. Outro dia tive que ouvir de uma colega, “você não vai lá ajudar ele, você que tinha que fazer isso, isso é papel da mulher” eu respondi “não nasci pra ser escrava, sou namorada dele, não empregada e você é machista”. Meu namorado pede muitas vezes pra eu chegar um pouco mais tarde na casa dele, porque ele não terminou de limpar a casa (ela queria que eu fosse lá limpar a casa dele). Quando ele vem em casa eu não faço ele limpar minha casa, do mesmo modo que eu não vou limpar a dele. Nós acreditamos em igualdade, ele não está na minha frente, do mesmo modo que eu não estou na frente dele. Por essas e outras eu sou “chata”, “exigente”, “seletiva”, “brava”, “mandona” e por aí vai. Mas o meu namorado diz “eu não vejo essas coisas que os outros enxergam em você”. Eu acredito em homens bons, com caráter, que pensam em igualdade e não em superioridade, mesmo porque já tive amigos assim e meu pai também é assim, ele respeita minha mãe, não chega em casa do trabalho exigindo comida na mesa, mesmo porque minha mãe quando não quer não faz comida e pronto. E as pessoas até perguntam quando minha mãe não está “o que seu pai vai comer? você não vai fazer comida pra ele?” e eu respondo “vou, mas demora” (gíria que a gente usa muito aqui pra quando algo não vai acontecer nunca), mesmo porque meu pai não me pede comida, ele pergunta o que eu quero comer que ele vai buscar, ao contrário de certos homens que chegam em casa e ficam bravo porque não tem comida! Mas voltemos ao foco, não sei se você entende meu pensamento, mas está cravado no seio da sociedade esse pensamento machista. Eu ainda não conheci ninguém por perto de mim, assim como eu. Minha família (tios, tias, primos…) é machista, afinal, somos descendentes de japoneses, famosos por serem extremamente machistas, mas tive a sorte de ter um pai e uma mãe com a cabeça “boa”. Mas o que eu escuto todo dia não me faz enxergar uma luz no fim do túnel, me dá uma tristeza, acho que por isso eu tomo remédios pra depressão, ansiedade, pânico, rs. Vivemos em uma sociedade machista, mulher não pode isso, mulher não pode aquilo, mulher tem que casar, ter filhos, cuidar da casa e ponto final. Vagabunda, vadia, vaca, biscate, puta, gorda, cachorra, égua, etc. todas essas palavras são carregadas de um sentimento de rebaixamento da parte de quem diz, mesmo que a palavra não seja. Vagabundo, vadio, boi, biscate, puto, gordo, cachorro, cavalo, tem um sentido totalmente diferente. Se a mulher trai e o homem mata “bem feito pra ela, mereceu”, se o homem trai e ela mata “instinto masculino, cedeu aos pecados da carne”. Eu fico muito pessimista, mas ainda continuo na luta, mesmo que seja só eu no meio de tantos. Estamos aí.

  2. Joao augusto ribas disse:

    O site está de Parabens. Jessica ferrara, texto maravilhoso sobre o feminicidio no Brasil!

  3. Rachel disse:

    Oi, Jéssica! Adorei o texto!

    Olha, eu sou jornalista e trabalho para um blog chamado Observatório Feminino. Além dos textos de nossa autoria, compartilhamos também textos de terceiros. Gostaria de compartilhar teu texto com os devidos créditos, claro. O que você acha?

    Beijos!

    • Rachel, mas é claro que sim! Fico muito feliz em ouvir isso! Quando você compartilhar você me avisa? Farei questão de repassar seu blog para amigas e amigos! Obrigada pelo carinho, de verdade!

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