A mídia e a autoestima das mulheres negras

"Mas é claro que essa falta de representatividade significa alguma coisa: significa que a sociedade não nos enxerga como dignos, ou que nós não somos parte do padrão", diz Lola Ferreira.

Zigzag Black

Por Nathalia Levy

HOME_NewFaces_TeenVogue_________

Quando escrevi este post, em 25 de julho, não imaginava que em menos de um mês seria surpreendida. A edição de agosto da Teen Vogue (versão para adolescentes da revista de moda mais poderosa do mundo) colocou três meninas negras em sua capa com a chamada “Os novos rostos da moda”: Imaan Hammam, Aya Jones e Lineisy Montero.

teen-vogue-agosto-2015-modelos-negras

Capas da edição de agosto da Teen Vogue (Foto: Reprodução)

Em setembro, outras surpresas. Algumas publicações deixaram o padrão branco de lado e apostaram em atletas, cantoras, atrizes e modelos negras. Vale ressaltar que, na moda, as edições do mês nove são as maiores e mais importantes do ano.

capas de setembro

(Fotos: Reprodução)

Além disso, durante a New York Fashion Week, que terminou na última quinta-feira (17.9), houve um aumento na quantidade de modelos negras escaladas para os desfiles, sendo que cinco marcas as escolheram para abrir suas apresentações. Da esquerda para direita, Jason Wu, Suno, Derek Lam, Proenza Schouler e Tommy Hilfiger.

Crédito: FFW

(Fotos: FFW)

Isso significa que, pelo menos durante este período, toda a mídia especializada produzirá conteúdos mais diversificados e representativos, já que as pautas inevitavelmente giram em torno das semanas de moda. E ainda é muito provável que estas modelos sejam escaladas para campanhas de grifes importantes que, mais para frente, serão veiculadas em revistas e canais de televisão, além de outdoors espalhados por lojas, ruas e até aeroportos. Pelo menos por este espaço de tempo, veremos mais representantes negras ocupando espaço na mídia e influenciando positivamente o processo de construção de imagem e autoaceitação das mulheres.

Um bom exemplo da interferência da mídia nesse processo pôde ser visto na fala de Djamilla Ribeiro, filósofa e colunista da Carta Capital, durante a palestra “Raça e Gênero: a mulher negra em cena”, na Faculdade Cásper Líbero. Ela lembrou de sua infância assistindo ao programa da Xuxa, na época considerada um ícone de beleza ao lado de suas assistentes de palco. “Imagina o que era para um adolescente ver quatro gerações de paquitas e nenhuma negra”, relembrou. Lola Ferreira, da Revista Capitolina, reforça o questionamento.

“Nas Chiquititas, só tinha uma. Nos desenhos, não tinha ninguém, e eu não percebia que era um problema. Mas é claro que essa falta de representatividade significa alguma coisa: significa que a sociedade não nos enxerga como dignos, ou que nós não somos parte do padrão”. Ela ainda alerta sobre os perigos dessa influência em meninas jovens. “Tenho uma afilhada de dois anos e meio. Ela tem uma boneca da cor dela, mas não vai reconhecer que a gente é excluído e que a nossa beleza não é reconhecida tão cedo. Eu, por exemplo, tenho poucas lembranças de como isso me afetou quando pequena, mas com certeza me afetou, porque, se não, eu não alisaria ou pensaria em pintar o cabelo, não odiaria que meu quadril fosse largo… Várias coisas são colocadas na nossa cabeça sem a gente perceber. Esse é o perigo da mídia ter um padrão cravado. A sociedade disse que meu cabelo era ruim desde que eu era criança.”

A recente melhora não pode ser desconectada da influência de grupos militantes e da mídia alternativa sobre os veículos tradicionais. Para Lola, esses grupos estão, sim, fazendo barulho e pautando grandes sites, revistas e jornais, além de estarem influenciando novas gerações. Basta olhar para as redes sociais de revistas femininas e perceber que alguns comportamentos racistas que, até então, eram naturalizados, começaram a ser questionados. A capa da revista Glamour, por exemplo, trouxe Sheron Menezzes de cabelo alisado, ao lado de Mariana Ximenes e Paolla Oliveira, e gerou polêmica.

glamour1

Crédito: Reprodução Instagram

Para se defender, a revista postou logo em seguida em sua conta no Instagram uma foto interna da edição, em que a atriz aparece com o cabelo natural. Mas a pergunta que fica é: era necessário padronizá-la na capa? Será que a ideia de que negros vendem menos continua encrustada?

glamour-brasil-setembro-2015-capa-resposta-monica-salgado-instagram

(Fotos: Reprodução/Instagram)

Quando indagada sobre o motivo do alisamento, a diretora da publicação respondeu pelo Instagram que “elas estão encarnando sereias modernas”. Como se sereias não pudessem ser representadas com cabelos enrolados e volumosos.

Ainda que esteja claro que Sheron possui toda a liberdade de mudar de penteado, é preciso admitir a hegemonia de cabelos lisos nas capas e a escolha da revista em não aproveitar a oportunidade de aumentar a representatividade. Algumas revistas justificam a falta de diversidade em suas matérias e editoriais ao colocar a culpa na própria sociedade, como se os veículos de comunicação também não tivessem influência sobre o pensamento de uma época. 

Ao que tudo indica, esta deixou de ser a opinião das leitoras, como bem observa Stephanie Noelle, autora do blog Chez Noelle, ao evidenciar que as revistas deveriam entender seu papel na construção da autoestima das mulheres e abraçar a diversidade. “Talvez um pouco da crise do jornalismo, pelo menos nesta área, se deva ao fato das leitoras já não sentirem que essas revistas conversam com elas”, finaliza.

facebooktwittergoogle_pluspinterestmail
Nathalia Levy
Ama o jornalismo, mas também queria estar fazendo design gráfico, cursos de programação, aprendendo a ilustrar e estudando ciência política. Pretende juntar todas essas paixões para discutir questões de gênero.


Deixe uma resposta